Documento Orientativo: Participação Complementar da Iniciativa Privada no SUS

Município de Bezerros/PE - Preparação para Reunião no TCE-PE

Data: Julho de 2026

A. Diagnóstico da Demanda e Estrangulamento Assistencial

O Município de Bezerros vem enfrentando um severo estrangulamento em sua capacidade instalada de saúde, gerando uma demanda reprimida que coloca em risco a assistência à população. Atualmente, a fila de espera da Central de Regulação acumula 4.904 pacientes aguardando procedimentos essenciais, com um tempo médio de espera que chega a 6 meses ou mais em especialidades cruciais.

A atual força de trabalho pública encontra-se no limite de sua capacidade de produção (produzindo 1.776 atendimentos/mês nas especialidades mapeadas). A ampliação imediata do quadro próprio, via concurso público, esbarra em limites operacionais e de responsabilidade fiscal (LRF, art. 18). Diante disso, pautado na Constituição Federal (art. 199) e na Lei nº 8.080/1990 (arts. 24 a 26), o Município busca segurança jurídica junto a este Egrégio Tribunal para instituir a Participação Complementar da Iniciativa Privada no SUS Municipal, garantindo acesso à saúde por meio da compra de procedimentos e resultados assistenciais, e não de mera intermediação de mão de obra.

4.904 Pacientes aguardando no SISREG
6+ meses Tempo Médio de Espera em especialidades críticas

A Secretaria Municipal de Saúde realizou um levantamento situacional apurando um descompasso severo entre a necessidade de saúde da população e a capacidade de oferta:

Procedimento / Serviço Fila Atual (Demanda) Produção Própria (Média/Mês) Tempo Médio de Espera
Ultrassonografia1.467 pacientes656 examesDe 1 a 6 meses
Dermatologia504 pacientes80 consultas6 meses ou mais
Ginecologia368 pacientes180 consultasDe 1 a 4 meses
Gastroenterologia360 pacientes30 consultasDe 1 a 6 meses
Neurologia347 pacientes50 consultas6 meses ou mais
Ortopedia307 pacientes240 consultasDe 1 a 3 meses
Vascular225 pacientes50 consultasDe 1 a 4 meses
Otorrinolaringologia208 pacientes80 consultasDe 1 a 3 meses
Mamografia196 exames130 examesDe 1 a 2 meses
Neuropediatria152 pacientes50 consultas6 meses ou mais
Fonte: Elaboração Própria (Dados: Central de Regulação, 2026).

A tabela acima revela gargalos extremamente preocupantes: pacientes aguardando seis meses ou mais por avaliações neurológicas, neuropediátricas e dermatológicas. Considerando apenas a produção própria atual, o Município é fisicamente incapaz de zerar essa fila em tempo hábil sem colocar o usuário em risco de agravamento clínico.

Consultas e Exames Especializados vs. Estrangulamento

A necessidade de credenciamento fica cristalina ao cruzarmos a produção ambulatorial com a Fila. O volume produzido é matematicamente incapaz de absorver a demanda. Exemplos críticos (TabNet 2022-2026):

B. Estudo da Capacidade Instalada Própria e Análise de Custeio

O Município mapeou a sua capacidade instalada de recursos humanos, confrontando-a com a produção efetiva e os altíssimos custos da folha salarial. O cenário justifica a impossibilidade de absorção interna, visto que o quadro já atua no limite:

Profissionais Disponíveis (O Peso da Folha): O Município faz um esforço hercúleo para manter 45 médicos em sua folha (excluindo-se a Atenção Primária). A esmagadora maioria deste efetivo (25 médicos) é consumida exclusivamente para cobrir as escalas ininterruptas da UPA e da Unidade Mista. O contingente restante atende de forma pulverizada nos outros equipamentos. A carga horária contratual e o impacto orçamentário já se encontram no limite máximo.

Lotação (Unidade) Total de Médicos Custo Total Bruto (Mês)
Unidade de Pronto Atendimento (UPA)16R$ 190.800,00
Unidade Mista São José9R$ 102.000,00
Policlínica9R$ 61.000,00
Casa da Mulher4R$ 28.000,00
Espaço Bem Viver3R$ 23.550,00
Auditoria2R$ 20.000,00
Centro de Reabilitação1R$ 8.000,00
CAPS1R$ 6.000,00
Fonte: Elaboração Própria (Dados: Fundo Municipal de Saúde, 2026).

O Caso da UPA 24h Municipal: Hoje, o Município recebe do Ministério da Saúde um custeio de R$ 100.000,00/mês (Opção III / Porte I), exigindo 4 médicos por plantão de 24h. Contudo, nossa demanda é de 240 pacientes/dia (perfil compatível com Porte II ou III). Somos obrigados a bancar uma equipe robusta (3 médicos por plantão + enfermeiros), gerando um alto turnover. Conforme relatório de 2025, a UPA consumiu R$ 12.050.694,12 (sendo R$ 10.130.348,63 exclusivamente com folha). Isso evidencia que o Município já aporta recursos próprios muito além de sua capacidade.

Panorama de Custeio da Atenção Especializada e Hospitalar (2025)

A sobrecarga não é um caso isolado. Ela se estende a todos os outros equipamentos:

Equipamento Especializado Custo Total Acumulado (2025) Pacientes Atendidos Custo Médio por Paciente
Unidade Mista São José (Hospital)R$ 2.337.340,723.032R$ 770,89
Centro Municipal de ReabilitaçãoR$ 1.581.102,1039.600R$ 39,93
Casa da Mulher Zezinha VasconcelosR$ 1.397.923,4019.996R$ 69,91
Laboratório MunicipalR$ 1.281.340,2816.007R$ 80,05
Policlínica Narciso LimaR$ 1.251.692,648.707R$ 143,76
CAPS BezerrosR$ 574.799,9033.392R$ 17,21
SAD (Melhor em Casa)R$ 553.202,648.616R$ 64,21
Fonte: Elaboração Própria (Dados: Relatório Anual de Gestão, 2025).

Ociosidade Estrutural e Histórico (AIH/SUS): O volume de internações saltou de 2.974 (2022) para 5.303 (2025). Nos procedimentos cirúrgicos, a unidade municipal realizou apenas 292 (2,2%), enquanto o prestador não-estatal executou 12.860 (97,8%). Isso demonstra que a rede municipal absorve menos de 10% da demanda, ratificando a necessidade de complementação.

C. Estudo Técnico Preliminar (Alternativas de Solução)

É basilar destacar ao Órgão de Controle que a atual ociosidade e as filas não decorrem de negligência, mas do "apagão" de especialistas dispostos a atuar no interior sob regime estatutário municipal. Analisou-se todas as alternativas:

  1. Concurso Público: Inviável. Esbarra na LRF (teto prudencial) e no teto remuneratório do Município, não conseguindo atrair especialistas. O rito é moroso.
  2. Consórcios Intermunicipais: Insuficientes. Enfrentam a mesma escassez de mão de obra, não dando vazão ao volume local.
  3. Contratação de Organização Social (OS): Entregar a gestão completa custaria mais aos cofres e retiraria o controle direto, modelo que a gestão quer evitar.
  4. Credenciamento: A solução mais eficiente. O Município matem a administração e a Regulação, comprando apenas o serviço complementar (pago por produção laudada). É a resposta mais rápida, legal e econômica.

D. Credenciamento ou Licitação? O Modelo Pretendido

Para garantir que a contratação não caracterize burla ao concurso e atenda ao TCE-PE, o Município adotará o Credenciamento por procedimento realizado, segregando os objetos: Consultas Médicas, Exames/Procedimentos Diagnósticos e Cirurgias Eletivas.

O Paradigma do Programa "Agora Tem Especialistas" (AgSUS)

A União, reconhecendo o apagão de especialistas, instituiu a Modalidade 2 via AgSUS. O Ministério da Saúde abre editais para credenciar Pessoas Jurídicas. O Município utilizará idêntico raciocínio (Art. 199 da CF e Art. 24 da 8.080/90). A empresa fornecerá a equipe médica para atender dentro da infraestrutura pública que estava ociosa, recebendo por tabela de produção, afastando a quarteirização (terceirização global). O processo obedecerá à Nova Lei de Licitações (ETP, TR e Edital de Chamamento Público permanente).

Tabelas Municipais de Remuneração (Preços Prefixados)

Um dos pilares da transparência é a adoção de Tabelas Municipais Próprias baseadas em pesquisa de mercado:

Procedimentos (Ambulatoriais, Imagem e Cirurgias Eletivas) VALOR Prefixado
Consulta Médica EspecializadaR$ 80,00
MamografiaR$ 45,00
Densitometria Óssea Duo-EnergéticaR$ 60,00
USG Doppler ColoridoR$ 180,00
ColecistectomiaR$ 2.834,70
Histerectomia TotalR$ 2.797,33
Herniorrafia UmbilicalR$ 1.759,65
Parto CesarianoR$ 2.400,00
ApendicectomiaR$ 1.190,91
Fonte: Resoluções nº 05/2022 e 09/2023 - Conselho Municipal de Saúde.
Exames Laboratoriais (Amostra de Valores) VALOR Prefixado
Dosagem de AmilaseR$ 4,78
Hemoglobina GlicosiladaR$ 12,15
Dosagem de TSHR$ 13,19
Pesquisa de Anticorpos (Hepatite C / HIV)R$ 21,75 a R$ 29,07
HemoculturaR$ 46,62
Fonte: Resoluções nº 05/2022 e 09/2023 - Conselho Municipal de Saúde.
Diagnóstico por Imagem (Ultrassonografias) VALOR Prefixado
USG de Abdômen TotalR$ 112,18
USG Mamária BilateralR$ 90,00
USG Obstétrica e TransvaginalR$ 79,52 a R$ 81,54
USG MorfológicaR$ 280,07
Fonte: Resoluções nº 05/2022 e 09/2023 - Conselho Municipal de Saúde.

E. Questionamentos ao TCE-PE

  1. O TCE-PE considera legítimo o credenciamento de estabelecimentos privados para compra de procedimentos complementares ao SUS quando demonstrada demanda reprimida e insuficiência da rede própria?
  2. Quais elementos o Tribunal exige para diferenciar compra de serviços assistenciais (PJ) de terceirização de mão de obra substitutiva de servidores?
  3. O pagamento por procedimento realizado, com atendimento no estabelecimento do prestador, regulação municipal e ausência de subordinação direta, deve ser contabilizado como despesa com pessoal?
  4. Nos procedimentos executados dentro de unidade municipal (AgSUS), quais características podem levar à inclusão da despesa no artigo 18, §1º, da LRF?
  5. A preferência constitucional às entidades filantrópicas obriga contratação exclusiva ou permite credenciamento de prestadores com fins lucrativos quando a oferta for insuficiente?
  6. É possível adotar tabela complementar municipal, com recursos próprios, após pesquisa de mercado e demonstração de defasagem da tabela SUS?
  7. Qual deve ser a metodologia de rateio da demanda entre os múltiplos credenciados? O Município pode estabelecer teto mensal sem garantir produção mínima?
  8. O Tribunal recomenda consulta formal prévia ou auditoria de acompanhamento preventivo do edital?

F. Avaliação Final para o Caso de Bezerros

A contratação é plenamente lícita. O discurso da reunião deve focar na "política assistencial de redução de filas e garantia da vida", fundamentado no Programa Agora Tem Especialistas (PATE), e não em manobra contábil de folha.

Argumentação-Chave: "Temos demanda reprimida comprovada e risco de desassistência de 4.904 pessoas. A capacidade instalada pública foi mensurada, nossa folha sangra cerca de R$ 480 mil mensais com o quadro médico atual e, ainda assim, não damos vazão (limites operacionais e fiscais). A UPA sozinha consome R$ 12 milhões ao ano. Por isso, pretendemos adquirir serviços puramente assistenciais de Pessoas Jurídicas, com regulação integral do Município, sem subordinação e com pagamento estrito por produção laudada, rateando a fila entre todas as clínicas habilitadas."

Referências Bibliográficas